Quanto mais o cenário muda, mais perigoso é acreditar que você está no controle

*Por João Roncati, CEO da People+Strategy

Existe uma sensação recorrente nas conversas com executivos e, sendo
honesto, algo que eu mesmo já senti em alguns momentos, de que ao olhar
para os números, relatórios e indicadores, temos uma visão relativamente clara
do que está acontecendo numa organização.

É uma sensação confortável e um apoio necessário para seguir tomando
decisões todos os dias. Mas ela pode ser enganosa. Nunca tivemos tantos
dados disponíveis como agora. Segundo a IDC, o volume de dados no mundo
cresce mais de 20% ao ano, o que, em teoria, deveria nos colocar em uma
posição privilegiada de leitura. Na prática, isso não se traduz automaticamente
em informação qualificada, compreensão e muito menos em melhores
decisões.

O que tenho visto com mais frequência é o oposto: empresas cercadas de
informação, mas ainda operando com uma leitura parcial da realidade. A
governança de dados é uma competência essencial para uma organização
pública ou privada.

Um estudo da McKinsey & Company mostra que organizações orientadas por
dados têm até 23 vezes mais chances de adquirir clientes, mas apenas uma
minoria consegue. Isso revela um ponto importante: não é a falta de dados que
limita as empresas, mas a capacidade de transformar esse volume em algo
confiável, conectado e útil no tempo certo. Entre o que acontece na operação
ou ao redor da empresa no mercado e o que chega à mesa de decisão, ainda
existe uma distância de qualidade e ou um atraso, que custa caro.

Esse descompasso fica ainda mais crítico quando consideramos o ambiente
atual. A velocidade de mudança, a volatilidade aumentou de forma significativa
nos últimos anos, e isso não é percepção isolada. De acordo com a PwC, 76%
dos CEOs globais reconhecem que seus mercados se tornaram mais voláteis e
menos previsíveis.

Nesse contexto, confiar apenas em leitura histórica ou em relatórios
consolidados deixou de ser suficiente, pois a visão “extrapolativa” (projeção do
futuro baseado no passado) vem criando mais e mais armadilhas.

A volatilidade tem se concretizado na velocidade elevada com que as variáveis
criticas e suas correlações mudam, criando situações totalmente imprevistas e
inusitadas. Não são poucas vezes que o problema já está em curso quando
começamos a discuti-lo, ou reagir a ele.

É por isso que trabalhar com cenários, a partir do domínio dos dados deixou de
ser apenas um exercício para a construção da estratégia e requer ser
incorporado como um processo de ciclo contínuo, diário.

Neste contexto, é necessário ter clareza que os dados servirão
simultaneamente para olhar para o passado recente e, para projetar tendências
de forma rápida. — uma expectativa equivocada e bastante comum. Mas para
reconhecer que existem múltiplas possibilidades, o que deverá gerar a
construção de vários possíveis caminhos. Lidar com a ambiguidade e a
incerteza não são competências apenas dos empreendedores, mas essenciais
a organizações em mercados complexos.

Um levantamento da Gartner reforça esse ponto ao mostrar que grande parte
das organizações ainda utiliza apenas uma fração dos dados disponíveis de
forma efetiva — e, muitas vezes, com atraso em relação ao momento em que
poderiam gerar impacto, agravado pelo pouco tempo dedicado à análise de
cenários. Isso ajuda a explicar por que tantas decisões ainda são sustentadas
por leituras incompletas, interpretações parciais ou até percepções bem
articuladas, mas desconectadas de indicadores de alto impacto, fortemente
“opinativas”.

Ao longo dos anos, evoluímos muito na forma de apresentar
decisões, mas nem sempre na qualidade da informação, na formulação de
hipóteses e, portanto, na tomada de decisão.

O ponto que me parece mais relevante, e talvez mais incômodo, é que muitas
organizações percebem que hoje algumas das suas estruturas já não
respondem com a mesma eficiência e velocidade, mas ainda reagem
lentamente. O ambiente tem mudado com uma frequência ainda não
vivenciada por nós. Por isto é necessário adaptar o processo de formulação da
decisão: abandonar a sensação de segurança por ter acesso a um grande
número de dados, cultivando a análise e a governança que os tornará
informação qualificada para a tomada de decisão que buscará mitigar os riscos
e maximizar o valor gerado.

No fim, a questão não é se o cenário vai continuar mudando e sempre mudou.

O que aumentou foi a velocidade, ou como costumo dizer, a altura dos picos, a
profundidade dos vales e a distância entre eles. A grande questão é se nós e
nossas empresas estão preparadas para perceber essas mudanças no tempo
certo e agir com base em leitura coerente, mobilizando uma melhor gestão de
riscos e decisões de alto valor no curto e no longo prazo.