O desemprego caiu, mas os jovens continuam ficando para trás

Apesar da queda histórica do desemprego, jovens ainda enfrentam barreiras para ingressar e crescer no mercado de trabalho. 

A taxa de desemprego no Brasil atingiu 5,8% no trimestre encerrado em abril de 2026, o menor nível desde o início da série histórica da PNAD, do IBGE, em 2012. O dado é positivo. Mas fazer uma leitura superficial dele é um erro. Porque, ao mesmo tempo em que o desemprego recua, o mercado de trabalho revela uma distorção cada vez mais evidente e pouco discutida.

Entre jovens de 18 a 24 anos, a taxa de desemprego chega a 13,8%, mais que o dobro da média nacional, segundo o IBGE. E, mesmo entre os que estão ocupados, há um padrão preocupante: uma forte concentração em funções de baixa complexidade, com menor remuneração e alta rotatividade.

Não estamos diante de um problema de acesso ao trabalho. Estamos diante de um problema de qualidade do trabalho e, principalmente, de ausência de trajetória. Essa distorção se aprofunda quando observamos o recorte de gênero e raça. Segundo dados divulgados pela Agência Brasil, o desemprego entre mulheres negras jovens chega a 24,7%. Em um cenário de melhora geral dos indicadores, esse número revela algo incômodo: o mercado não está evoluindo de forma homogênea; está selecionando quem fica para trás. Onde fica a inclusão no longo prazo?

Evidencia-se que quem fica para trás são justamente aqueles que mais deveriam ter acesso à primeira oportunidade, por questões estruturais, socioeconômicas e históricas.

Durante décadas, funções operacionais e de entrada funcionaram como o primeiro degrau da vida profissional. Não eram ideais, mas cumpriam um papel essencial: inserir, formar, formalizar vínculos e desenvolver profissionais.

Agora, esses degraus estão sendo rapidamente eliminados. As causas? Ainda que seja difícil especificá-las, destacam-se padrões históricos de seleção e uma educação de baixa qualidade, somados ao uso da tecnologia para automação na busca por eficiência operacional. Vale lembrar que trabalhos compostos por tarefas repetitivas são candidatos naturais à automação e à digitalização, em uma velocidade muito superior à capacidade do mercado de criar novas portas de entrada.

E o que estamos fazendo nesse contexto? Acho que pouca coisa. Estamos celebrando indicadores agregados enquanto ignoramos a erosão silenciosa da base que sustenta o desenvolvimento profissional e forma o mercado.

O paradoxo é evidente: a geração mais preparada tecnologicamente — aquela que chamamos de nativos digitais — é, ao mesmo tempo, a que encontra mais dificuldade para começar. Não por falta de qualificação, mas por falta de espaço. Isso não é um problema de curto prazo. É um risco estrutural.

Empresas que não conseguirem transformar potencial em experiência prática estarão, inevitavelmente, comprometendo sua própria sustentabilidade na formação de talentos e de profissionais seniores, que deverão supervisionar o processo de automação e, principalmente, o uso da IA.

E há um agravante que não pode ser ignorado: quando o mercado falha em criar oportunidades, ele não falha de forma neutra. Ele amplia desigualdades que já existem.

A pergunta, portanto, não é apenas se o desemprego caiu. A pergunta é: que tipo de mercado estamos construindo quando até os bons indicadores escondem exclusão, desalinhamento e ausência de futuro?

Porque, se não formos capazes de responder a isso com urgência, o que hoje parece um avanço pode ser, na prática, o início de um problema muito maior.

João Roncati, CEO da People+Strategy