A inteligência artificial deixou de ser uma promessa distante e passou a ocupar um papel central nas decisões corporativas. Hoje, algoritmos analisam volumes massivos de dados, identificam padrões invisíveis ao olhar humano e oferecem recomendações em uma velocidade inalcançável para qualquer gestor. Diante desse cenário, uma questão se impõe às lideranças: como exercer autoridade, visão e direção quando a tecnologia parece “saber mais” do que você?
Em primeiro lugar é necessário dizer que estou ciente de que a IA hoje é um processador de altíssimo nível e, tecnicamente não é uma “inteligência”. É justamento o uso da palavra inteligência que embaralha um olhar não qualificado. Mas o que importa nesta abordagem é o papel do líder, que não está em competir com a IA, nem em tentar dominá-la tecnicamente em todos os níveis. O verdadeiro desafio da liderança contemporânea é outro: aprender a liderar com a IA, e não apesar dela e nem em detrimento de pessoas da sua equipe talvez mais qualificadas do que ele mesmo para operá-la.
Estudos acadêmicos reforçam essa mudança de paradigma. Uma pesquisa publicada na Scientific Reports demonstra que a adoção bem-sucedida de tecnologias avançadas, como a inteligência artificial, depende menos da sofisticação da ferramenta e mais da capacidade da liderança de integrá-la à cultura organizacional, aos processos e às estratégias de longo prazo. Em outras palavras, a tecnologia sozinha não transforma empresas — são as decisões humanas que determinam seu impacto real. E isto serve para qualquer tecnologia!
Ao mesmo tempo, dados de mercado revelam um descompasso importante dentro das organizações. Pesquisas internacionais indicam que cerca de 87% dos executivos já utilizam inteligência artificial em suas rotinas profissionais, enquanto apenas 27% dos colaboradores fazem o mesmo. Esse dado não aponta apenas para uma diferença de acesso, mas para um desafio de liderança: como engajar pessoas, redesenhar fluxos de trabalho e criar confiança em um ambiente cada vez mais mediado por algoritmos, pretensa e informalmente invadido pelo uso de IA de forma não sistêmica.
Esse cenário evidencia uma mudança profunda no papel do gestor. Se antes liderar estava, senso comum, associado a deter conhecimento técnico e respostas prontas, hoje o valor do líder está cada vez mais ligado à sua capacidade de interpretar informações, fazer perguntas melhores, mobilizar recursos eficientemente (como a IA) e tomar decisões contextualizadas. A IA pode indicar caminhos, mas não define prioridades, valores ou impactos humanos. Essa responsabilidade continua sendo, essencialmente, da liderança.
A literatura recente sobre gestão e inteligência artificial aponta que líderes eficazes nesse novo contexto são aqueles capazes de combinar visão estratégica, pensamento crítico e ética. Não se trata apenas de entender como acumular e analisar dados, mas de compreender suas limitações, seus vieses e suas consequências para a sociedade. Afinal, decisões influenciadas por IA podem ser eficientes, mas nem sempre são justas, empáticas ou sustentáveis se não estiverem submetidas por códigos de ética definidas por seres humanos, por assim dizer.
Essa dificuldade de adaptação já aparece de forma clara em pesquisas com executivos. Um levantamento da Liz Mohn Foundation mostra que, embora muitos líderes reconheçam o potencial da IA para apoiar tarefas como planejamento e análise, apenas uma parcela ainda limitada a utiliza em decisões mais complexas, como gestão de pessoas, resolução de conflitos ou desenvolvimento de equipes. Possivelmente muitos líderes não compreenderam como usa a IA, como extensão de sua própria capacidade intelectual.
Na prática, liderar na era da IA exige uma mudança de mentalidade. O gestor deixa de ser o principal detentor e integrador do conhecimento (o que já é desafiador) e passa a atuar como construtor sistêmico: alguém que conecta dados, pessoas e propósito. Isso implica assumir um papel mais estratégico, mais relacional e, paradoxalmente, mais humano em um ambiente cada vez mais automatizado.
Talvez um dia, a IA possa substituir a capacidade humana de decisão e julgamento, mas hoje ela mais expões nossas fragilidades.. Ela escancara a necessidade de competências que nenhuma tecnologia consegue replicar: sensibilidade, ética, visão sistêmica e capacidade de lidar com ambiguidades. Em um mundo onde uma “ferramenta” (a IA) parece saber mais, liderar bem significa saber decidir melhor. A ideia genérica mas comum, de que o domínio do gestor era conquistado com mais informações está definitivamente enterrada.
As pessoas que compreenderem essa transição não apenas adotarão IA de forma mais eficaz, como construirão culturas mais maduras, resilientes e preparadas para o futuro, fortalecendo as organizações. Porque, no fim, a tecnologia pode processar dados, como um recurso poderoso, mas é o ser humano que tinge com ética e propósito o seu uso: o ser humano é o único recurso que define se outros recursos serão eficientes e geradores de valor, ou ineficientes e destruidores de valor.
*por João Roncati, CEO da People+Strategy – consultoria brasileira reconhecida e respeitada por seu trabalho estratégico com a alta liderança de grandes companhias. Mais informações no site.

