O anúncio da Amazon de que cortará cerca de 16 mil empregos corporativos em 2026, mesmo com lucros robustos, não é um evento isolado — é um sinal claro do momento radical que vivemos. A empresa atribui parte dessa decisão à busca por eficiência e ao uso de inteligência artificial para transformar operações. Mas mais do que números, o que está em jogo é nossa compreensão do trabalho, do mercado e do nosso sistema econômico.
Para além da tecnologia, esse movimento abre uma questão incômoda que tenho visto ser “delicadamente” evitada: estamos preparados para as consequências sociais e econômicas dessa transformação? Sequer discuto aqui se ela é desejável! A resposta, infelizmente, parece distante.
Dados de organizações internacionais sugerem que o impacto da inteligência artificial no mercado de trabalho será profundo. Segundo o Fundo Monetário Internacional (FMI), até 40% dos empregos globais podem ser afetados diretamente pela IA, com efeitos potencialmente maiores em economias avançadas.
Essa não é apenas mais uma disrupção tecnológica como outras que vimos ao longo da história. Revoluções anteriores reorganizaram setores inteiros, mas raramente desestabilizaram tão amplamente a relação entre trabalho e economia como agora. A IA não está apenas substituindo tarefas repetitivas — ela tem potencial para desempenhar atividades cognitivas que antes exigiam profissionais qualificados. O otimismo de que em outras Revoluções o mercado de trabalho e nosso sistema econômico construiu um novo “equilíbrio” é usar o passado para justificar nossa indolência em discutir o futuro.
A consequência disso não é apenas uma estatística de desemprego. É uma redução da base de consumo: quando pessoas perdem renda ou veem suas posições fragilizadas, desaparece não apenas força de trabalho, ameaça um elemento crítico de uma economia: a confiança no sistema. Sem confiança, a insegurança nas relações formais cresce, a poupança de longo prazo cai e, o consumo também. Uma economia não cresce apenas pela eficiência produtiva; ela cresce no jogo da demanda e da oferta. Menos empregos bem remunerados significam menos gente comprando, investindo e sustentando negócios.
Essa dinâmica é especialmente preocupante quando grandes corporações adotam automação como principal vetor de redução de custos, como demonstrado não só pela Amazon, mas por outras gigantes que têm intensificado demissões enquanto expandem investimentos em IA e infraestrutura de automação.
A analogia com revoluções anteriores ajuda a ilustrar a magnitude do momento: assim como a mecanização intensiva transformou cenários agrícolas e industriais no século XX, a IA tem potencial para tornar obsoleto o modelo tradicional de emprego fixo e estável. E, ao contrário das transformações anteriores, a IA pode impactar não apenas funções repetitivas, mas também cognitivas, exigindo das pessoas requalificação constante e habilidades que a tecnologia ainda não possui, como criatividade e pensamento estratégico.
Para as empresas, a pergunta não é mais se devemos adotar IA, mas como fazê-lo de maneira que preserve o tecido social e econômico que sustenta mercado, consumo e confiança. Eficiência sem estratégia pode gerar ganhos pontuais, mas não garante demanda futura. Reduzir a força de trabalho sem investir na requalificação, no redesenho de funções e no fortalecimento do mercado é, no limite, destruir a própria base de clientes. Novamente ecoarão otimistas dizendo: haverá mais tempo para o ser humano estar dedicado a um cotidiano mais prazeroso! Pode ser, desde que encaremos a séria discussão de renda mínima, hoje desgastada pela polarização ideológica do debate.
Se há algo que o corte recente na Amazon nos diz, é que a transformação está em curso e não espera por ninguém. Líderes de empresas precisam encarar de frente essa encruzilhada: usar a IA como aliada para criar valor sustentável ou confiar nela como desculpa para cortar custos imediatos, sem pensar nas consequências a médio e longo prazo.
A tecnologia, sem dúvida, traz oportunidades extraordinárias. Mas sua adoção sem reflexão estratégica cria mais do que disrupção: cria crise. E nem sempre estamos preparados para lidar com o preço social dessa conta.
*João Roncati, CEO da People+Strategy, consultoria brasileira especializada em Estratégia, Planejamento e Recursos Humanos. Mais informações no site.

