Sua empresa está pronta para as próximas ondas de calor?

Quando uma onda de calor chega, alguns problemas dos escritórios ficam difíceis de ignorar. A sala de reunião recebe sol direto à tarde e ninguém quer usá-la. Em um setor, os funcionários pedem para baixar a temperatura do ar-condicionado; em outro, reclamam do frio. No último andar, o calor vindo da cobertura persiste mesmo com os equipamentos ligados. A primeira reação costuma ser rever a climatização. Mas o que a arquitetura do edifício poderia ter evitado?

A pergunta é oportuna. Para outubro de 2026, o Instituto Nacional de Meteorologia prevê temperaturas acima da média em grande parte do Brasil, especialmente no Centro-Oeste e no Sudeste. A previsão não indica quando virá a próxima onda de calor, mas reforça a necessidade de preparar os espaços para períodos de temperatura elevada.

O primeiro passo é descobrir onde e em que horário o edifício ganha calor. Uma sala voltada para o sol da tarde, por exemplo, pode precisar de proteção externa nas janelas. Brises (quebra-sol) e outros elementos de sombreamento barram parte da radiação antes que ela atravesse o vidro. Cortinas internas ajudam a controlar a claridade, mas não cumprem exatamente a mesma função.

A escolha do vidro também importa. Grandes áreas envidraçadas podem trazer luz natural e boas vistas, mas precisam ser avaliadas conforme a orientação da fachada. Em uma reforma, substituir vidros ou rever as aberturas pode melhorar o desempenho de ambientes que hoje aquecem demais. Já em um projeto novo, estudar a posição das salas e das fachadas permite evitar parte do problema antes da obra começar.

É preciso olhar ainda para a cobertura e as paredes externas, que recebem sol por horas e influenciam a temperatura interna. Dependendo do edifício, isolamento térmico, materiais mais adequados e áreas sombreadas podem reduzir esse ganho de calor. A ventilação natural pode ajudar em alguns espaços, desde que seja compatível com o clima, o ruído, a segurança e a operação da empresa. Vegetação bem posicionada também pode proteger áreas de circulação e permanência do sol direto.

Essas escolhas já aparecem em projetos brasileiros. Na sede administrativa da Natura, em São Paulo, brises na cobertura filtram a incidência solar, enquanto o projeto preserva e amplia as áreas arborizadas do terreno. Na unidade da Nice, em Limeira, a combinação de massa térmica e ventilação natural permitiu projetar a área de produção sem sistemas mecânicos de aquecimento ou resfriamento, segundo os arquitetos responsáveis.

Também há espaço para agir em edifícios existentes. Na reforma do Bravo Paulista, prédio de escritórios em São Paulo, novos caixilhos e vidros de alto desempenho térmico fizeram parte da atualização. O exemplo mostra por que uma reforma deve investigar as causas do desconforto antes de se limitar à troca dos aparelhos de ar-condicionado.

Não existe uma solução única para todos os imóveis. É necessário observar a orientação solar, o clima da região e a forma como cada ambiente é usado. Uma sala ocupada pela manhã tem necessidades diferentes das de uma sala de reunião exposta ao sol no fim do expediente. Projetar para o calor exige reunir essas informações e escolher medidas que funcionem em conjunto.

Segundo a Agência Internacional de Energia, se não houver medidas para conter o crescimento da demanda, o consumo mundial de energia para resfriar ambientes poderá mais do que dobrar até 2050. Equipamentos eficientes são parte da resposta. A outra parte começa antes: reduzir o calor que o edifício precisa combater.

O ar-condicionado continuará indispensável em muitos locais de trabalho. Mas, diante dos próximos verões, vale perguntar se ele está climatizando um espaço bem planejado ou tentando corrigir, sozinho, problemas que a construção ou a reforma poderiam ter resolvido.