A armadilha do culto à juventude nas organizações

Durante anos, o ambiente corporativo brasileiro cultivou uma crença estética e estratégica: que a inovação e a agilidade vinham, quase que automaticamente, com a juventude. Era comum ver profissionais em início de carreira elevados a símbolos de velocidade e rupturas organizacionais, enquanto a experiência era, na melhor das hipóteses, tolerada.

Essa valorização ganhou força em um contexto de crescimento acelerado e necessidade de “novas ideias”. Mas hoje enfrentamos uma mudança demográfica que torna esse culto à juventude não apenas insuficiente como também arriscado para a sustentabilidade das organizações.

Dados do Censo Demográfico de 2022 do IBGE mostram que a parcela da população com 65 anos ou mais cresceu 57,4% em apenas 12 anos, enquanto a proporção de crianças até 14 anos caiu de 24,1% para 19,8% nesse mesmo período, evidência clara de que a base da pirâmide etária está se estreitando.

Em outras palavras: existem progressivamente menos jovens disponíveis e mais pessoas com experiência acumulada atuando ou querendo permanecer no mercado de trabalho.

E isso tem implicações diretas para estratégias de liderança.

Liderança, antes de ser atributo de idade, é competência técnica e emocional. Ela exige mais do que energia física ou entusiasmo: demanda repertório para mediar conflitos, organizar recursos escassos e manter consistência sob pressão. Tais competências não se “instalam” com treinamentos intensivos. Elas exigem horas de vivência em ambientes complexos, algo que profissionais mais experientes carregam como ativo.

Isso não quer dizer que jovens não possam liderar. Quer dizer que, estatisticamente, a probabilidade de um líder experiente entregar resultados sustentáveis em cenários de alta complexidade é maior do que simplesmente apostar em frescor etário.

O custo de ignorar essa realidade é alto. Empresas que sacrificam talentos seniores em nome de uma estética de vitalidade acabam enfrentando imaturidade na gestão de crises, políticas organizacionais frágeis e perda de capacidade de execução estratégica, fatores que impactam diretamente desempenho e resiliência.

Adicionalmente, o Brasil vive um processo de envelhecimento da força de trabalho: quase um em cada quatro brasileiros com 60 anos ou mais estava empregado em 2024, segundo dados recentes, e muitos continuam contribuindo em posições relevantes. Esse movimento revela que profissionais mais maduros não estão fora do mercado, estão ativos, com experiência e, muitas vezes, com ganhos superiores à média.

A verdadeira inovação não está em substituir experiência por juventude, mas em integrar repertório e energia de forma consciente. Lideranças eficazes são aquelas que conseguem articular diferentes gerações em um propósito comum, aproveitando a profundidade analítica dos mais experientes e a capacidade de adaptação dos mais jovens.

Hoje, o líder do futuro não será definido pela data de nascimento, mas pela capacidade de mobilizar pessoas sob incerteza, traduzir complexidade em direção e construir resiliência organizacional.

Não se trata de negar o valor do vigor juvenil, trata-se de reconhecer que liderança não é biologia, é competência, e que organizações que não ajustarem essa lente estratégica perderão vantagem competitiva em um mercado demograficamente mais velho e culturalmente mais exigente.

*por João Roncati, CEO da People+Strategy – consultoria brasileira reconhecida e respeitada por seu trabalho estratégico com a alta liderança de grandes companhias. Mais informações no site.