Saberemos gerenciar a transição?

Sou muito mais a favor de uma visão reflexiva e analítica. Olhando em retrospecto, a humanidade passou relativamente bem pelo processo de automação e convivência com a tecnologia, até hoje.

Somos inventivos e, mesmo com a preocupante ascensão de expressões sociais em diversos países que tendem ao desequilíbrio, quando penso no respeito pleno à vida, por outro lado, nunca na história estivemos tão dedicados ao meio ambiente, às questões de gênero, à busca de espaços de trabalho mais inclusivos e acolhedores (até estimuladores) do pensamento divergente. As grandes corporações têm códigos de conduta invejáveis quando comparados à algumas legislações ou mesmo, ao grau de consciência de poderes constituídos.

Então o que mais me preocupa não é o ponto de chegada apenas daqui a, digamos, 20 anos. Me preocupa grandemente a transição.

Nos períodos de transição, os limites são tênues, senão confusos. As oportunidades enormes, e muitas vezes carregam junto o fato de serem riscos absolutos, ou flertarem com enorme chance de fracasso.

Num período em que precisamos construir novos formatos, as perspectivas convivem com fantasmas do fracasso de passados às vezes bem recentes. As zonas de inseguranças, onde não estamos nem no passado, nem no futuro, exigem muito de nós.

São momentos (anos), em que os valores universalizáveis (são bem poucos na minha opinião) e o legítimo interesse pela manutenção da vida na Terra deverão  se opor ao uso duvidoso das ferramentas que potencialmente melhorarão as condições de vida. Precisaremos suplantar desejos individualizados, narcísicos, a ganância travestida de competitividade,  a vaidade somada ao egoísmo.

A transição exige tenacidade: o abandono do que já fomos, e que ainda somos em grande medida, lança para cada pessoa ou grupo, enorme insegurança. E há pouca coisa para combater este sentimento tão desconfortável ao ser humano, senão uma cuidadosa gestão, alicerçada em propósitos claros e preenchidos do desejo, ou sonho, de que construiremos dias ainda melhores.

Este período exige reflexão que contemple perspectivas diferentes. inclusive, fortemente divergentes. Exige cuidado, para que a mediação possa ser o esteio da convivência de possíveis oposições, gerando visões a ações mais consistentes. Exige equilíbrio para conviver com a dicotomia, os dilemas, abarcados pela insegurança. Fácil? De forma alguma.

Em situações assim nos apegamos à figuras heroicas e, a soluções que chamo de “atalhos salvadores”.

Elegemos ou damos notoriedade para pessoas que em tese têm respostas simples para “tudo” e transmitem a segurança de que farão retornar os tempos em que “tudo era melhor”. Que tempos foram estes mesmo?

Elegemos ou multiplicamos ferramentas, práticas que nos parecem simples, de fácil compreensão, rápida execução e que atenderão ao foco no cliente (para citar apenas um pressuposto dos tempos modernos)  em qualquer organização e com excelentes resultados. Procuramos constantemente uma forma de resolver todos os problemas de “uma só vez”. Impossível, atalhos que se demonstram caminhos mais longos, e caros.

Aumentamos a complexidade da vida, da competição, das opções disponíveis ao nosso redor. Existem sérios problemas, mas seguramente há avanços significativos em qualidade de vida ou pelo menos na sua expectativa. Se aumentamos a complexidade, não temos como simplificar sempre. Como dizia um sábio amigo professor: “problemas complexos, soluções complexas”.

Assim, eu acredito que paradas para reflexão são essenciais. Temos que gerenciar o processo de transição, para que não tenhamos apenas que reagir aos seus efeitos não desejados ou “agradáveis”.

Como diz o belíssimo poema que inspirava Nelson Mandela nos seus intermináveis 27 anos de cárcere: “somos senhores do nosso destino”. Não é o momento de procurar atalhos, ou heróis, mas de equacionar o nosso futuro na Terra.

* João Roncati é diretor da People + Strategy, consultoria de estratégia, planejamento e desenvolvimento humano. Mais informações: http://www.peoplestrategy.com.br/

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